25 de mar de 2013

AIDS: BOAS NOTÍCIAS DO FRONT DE BATALHA


A notícia da garota de 2 anos que, ao que tudo indica, ficou curada do vírus HIV com a terapia retroviral, deu volta ao mundo. Como interpretar essa boa nova? É o único caso até agora registrado? Parece que não. Mas é melhor não cantar vitória por enquanto...


A virologista Deborah Persaud que cuidou de uma recém-nascida infectada com HIV desde as primeiras horas de vida, parece ter conseguido a cura definitiva da sua pequena paciente
A virologista Deborah Persaud que cuidou de uma recém-nascida infectada 
com HIV 
desde as primeiras horas de vida, parece ter conseguido a cura definitiva 
da sua pequena paciente

Por: Equipe Oásis
No dia 4 de março último não se ouvia o menor ruído quando Deborah Persaud, pediatra-virologista do Johns Hopkins Children's center, subiu ao pódio da 20ª Conferência sobre retrovírus e infecções oportunistas, em Atlanta, Geórgia, EUA. Poucas horas depois a história que ela relatou já tinha dado a volta ao mundo. Há pouco mais de dois anos, uma mulher em trabalho de parto chegou ao departamento de obstetrícia de um hospital provincial no Mississipe. Exames de rotina tinham revelado que ela era portadora do vírus HIV e doente de Aids. O parto correu bem, mas a recém-nascida tinha o vírus no sangue. Um caso raro: na maior parte dos países pouquíssimos bebês nascem nessas condições. Quase sempre faz-se o exame no início da gravidez e a terapia preventiva com zidovudina (Azt) dada à mãe e depois também ao recém nascido durante as seis primeiras semanas de vida. Tais providências fazem com que o risco de transmissão da infecção ao bebê caia de 20% a 2%.
Os pediatras tinham transferido imediatamente a garotinha para a cidade de Jackson, onde ela foi internada no University of Mississippi Medical Center. Lá, Hannah Gay, pediatra especializada em Aids, começou já no dia seguinte uma terapia muito agressiva denominada Art (Anti retroviral treatment) à base de três fármacos (zidovudina, lamivudina e nevirapina) usados habitualmente apenas em adultos, com o objetivo de parar a multiplicação do vírus e limitar os danos que o Hiv causa ao sistema imunológico.
Coquetel de medicamentos usados na terapia Art
Coquetel de medicamentos usados na terapia Art
A terapia se mostrou eficaz: após um mês o vírus parecia ter desaparecido. Mesmo assim, o tratamento prosseguiu por 18 meses. Nenhum médico teria coragem de interromper a Art: anteriormente, em muitos casos quando isso aconteceu, o vírus reapareceu ainda mais agressivo do que antes. Mas, neste caso, a cura fora interrompida pela mãe que não levou a filha para os exames de controle durante 6 meses. Quando finalmente a garota voltou para se submeter aos controles, o vírus resultou desaparecido, apesar da ausência de terapia. Só um exame extremamente sensível foi capaz de individuar um único traço de Rna viral no sangue e 37 traços de Dna viral por milhão de um tipo particular de glóbulos brancos e leucócitos mononucleados (Pbmc). O mesmo exame, repetido dois meses depois, revelou a existência de 4 traços de Dna viral por milhão de Pbmc. A terapia antiviral não tinha sido retomada.
Os franceses da Visconti Cohort
Mas o caso da menina de Jackson não é o único. Na França, já são 14 os pacientes acompanhados desde o final dos anos 90 que, tratados com a terapia Art iniciada até 10 semanas a partir da data da infecção, suspenderam a terapia e encontram-se em situação de remissão, em média há 12 anos.
Eles são agora conhecidos como os pacientes da Visconti (Virological and Immunological Studies in Controllers after Treatment Interruption) Cohort. Todos esses pacientes são adultos que, alertados por sintomas agudos, começaram a terapia em até 40 dias após a infecção. Permaneceram em tratamento durante pelo menos um ano (em média 2 anos) antes de interrompe-la: hoje, todos eles controlam a infecção.
Timothy Brown, mais conhecido como "o paciente de Berlim". Há 5 anos ele mantém sob controle o vírus, que permanece aninhado em algum lugar do seu corpo, mas parece ter perdido a capacidade de se replicar.
O paciente de Berlim
Outra abordagem terapêutica também se revelou igualmente eficaz: o transplante de medula óssea de um doador. Foi experimentado pela primeira vez no "paciente de Berlim", Timothy Brown e publicada em 2009 na prestigiosa revista científica New England Journal of Medicine.
Timothy Brown, mais conhecido como “o paciente de Berlim”. Há 5 anos ele mantém sob controle o vírus,  que permanece aninhado em algum lugar do seu corpo, mas parece ter perdido a capacidade de se replicar
Timothy Brown, mais conhecido como “o paciente de Berlim”. 
Há 5 anos ele mantém sob controle o vírus, que permanece aninhado 
em algum lugar 
do seu corpo, mas parece ter perdido a capacidade de se replicar
Os pesquisadores contam que o paciente tinha contraído o Hiv cerca de 10 anos antes, e estava em terapia com Art há 4 anos quando, em 2007, desenvolveu uma leucemia mieloide aguda. Como Brown não respondia à quimioterapia, seu médico, Gero Hütter, oncologista e hematologista do Charité Universitätsmedizin de Berlim, o tinha submetido a um transplante de medula de um doador.
Hütter tinha buscado um doador com características genéticas particulares e, sobretudo, possuidor de uma mutação. Para penetrar nos linfócitos que infecta, o vírus Hiv necessita de uma porta, chamada receptor CCR5. O receptor CCR5 do doador tem uma porta que impede o ingresso ao vírus. Brown fez dois transplantes que não apenas curaram a leucemia, mas também dotaram o paciente de um sistema imunológico resistente ao Hiv.
Brown não toma fármacos anti Hiv desde os transplantes . Apesar disso, há 5 anos seu organismo não manifesta nenhuma infecção. Mas, também neste caso, não se trata de uma cura total. O último controle do paciente de Berlim, efetuado no final do ano passado, demonstrou que o vírus ainda está aninhado em algum lugar do seu organismo, porém parece ter perdido a capacidade de se replicar.
Os pacientes de Boston
Em Boston, no Dana Farber/Brigham and Women's cancer center, os médicos Daniel Kuritzkes e Timothy Heinrich transplantaram medula em dois outros pacientes soropositivos e em terapia com Art, ambos doentes também de linfoma di Hodgkin. Depois de 8-9 meses do transplante, esses pacientes não apresentavam mais nenhum traço de vírus no sangue.
Os resultados foram apresentados o ano passado na Conferência Internacional sobre Aids, em Washington, Mas, por enquanto, os médicos ainda não interromperam a terapia retroviral desses pacientes.
Os adolescentes de Worcester
Também ainda não foi suspensa a terapia de outros 5 adolescentes de 16 anos que nasceram infectados e, desde a idade de 2 meses, estão submetidos à terapia com Art. Em todos eles, há anos, o Hiv não se replica mais. O foco do debate, hoje, é se nesses casos pode-se tentar suspender a terapia – apesar do risco de recaída. Falta ainda, infelizmente, um fármaco capaz de eliminar os últimos traços do vírus. Mas o dia da cura definitiva da Aids parece estar cada vez mais próximo.

NOVA  VIA

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