17 de abr de 2013

A Pauliceia dos preços desvairados


Parte da classe média paulistana começa a descobrir que muitos comerciantes e prestadores de serviço estão cobrando preços abusivos, acima de qualquer justificativa - são, como certa feita disse o jornalista João Saldanha, depois de enfrentar à bala a fúria de um dono de padaria e seus asseclas, "ladrões oficiais".


Um site lançado há poucos dias, o Boicota SP já é um sucesso de público. Uma navegação rápida por ele mostra os absurdos do varejo paulistano e a fragilidade dos argumentos de defesa dos preços astronômicos.

É mais que evidente que esse pessoal que cobra R$ 20 por um sanduíche, R$ 40 por um prato de massa, R$ 300 pela mensalidade de um estacionamento (a rede PARX, por exemplo, teve a coragem de aumentar 65% seu preço para mensalistas, sob a alegação de que os seus concorrentes cobram o mesmo...), R$ 60 por um corte de cabelo etc etc, está se aproveitando da situação econômica inédita do país, praticamente com pleno emprego, renda dos trabalhadores em alta, e milhões de pessoas que viraram consumidoras.

Fazem o que fazem seguindo orientações da tal "lei da oferta e da procura", essa bobagem que manda cobrar mais quando o número de clientes aumenta e menos quando diminui - o botequim da esquina fez isso,   aumentou o preço do almoço por quilo, e, dias depois, fechou.

Com o mercado dessa forma, assim aquecido, seria normal que houvesse a tal "competição", que dizem os acadêmicos, os sábios que elevaram a economia ao status (imerecido) de "ciência", está no cerne do capitalismo.
Segundo esses luminares, a competição cura todas as distorções que possam haver no "mercado", ajusta todas as discrepâncias e desigualdades, é uma verdadeira panaceia para os males (poucos, dizem) dessa perfeição que é o sistema capitalista.

Tudo certo, tudo bonito, porém, tudo errado.
Pelo menos nesta Pauliceia de preços desvairados.

Aqui, pelo que se vê, as tais leis do mercado não funcionam. Ou se funcionam, não estão sendo seguidas.
Nessas circunstâncias, seguindo outra corrente de estudiosos, é necessário a intervenção do Estado, única entidade, para eles, capaz de corrigir os desvios do tal "mercado".

Há Procons, há um código de defesa do consumidor, há o Ministério Público, há um enorme aparto oficial para ser usado em tais casos.

Todos praticamente inacessíveis ao cidadão comum, todos reluzentes por fora e enferrujados por dentro.
No fundo, resta apenas ao pobre mortal exercer o mais simples de seu direito, que é o da escolha, algo que,  infelizmente, poucos fazem.

Quem sabe, a julgar pelo exemplo do Boicota SP e pela repercussão que está tendo até mesmo nos jornalões, a gente esteja em meio a uma mudança de mentalidade.

Seria algo notável - a classe média, tão amedrontada, tão alienada, tão sujeita à propaganda, tão conformista, pensar por si mesma...

Pode ser, mas pago para ver.

NOVA  VIA
-com Crônicas do Motta

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