3 de abr de 2013

Ministro ligado à extrema-direita deixa governo de Dilma mais conservador


Cesar Borges, ligado à política conservadora do interior da Bahia, é o mais novo integrante da equipe da presidenta Dilma


Cesar Borges, ligado à política conservadora do interior da Bahia, 
é o mais novo integrante da equipe da presidenta Dilma

Coube à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República anunciar, na noite passada, o nome do ex-governador da Bahia e ex-senador César Augusto Rabello Borges, filiado ao PR, cuja família é dona das rádiosFM Aimoré de Piritiba, no interior baiano, e da rádio FM Rio Novo, na distante Ipiaú (BA), como o próximo ministro dos Transportes, em substituição ao interino da pasta, Paulo Sérgio Passos. Esteio das mais arraigadas práticas do coronelismo no sertão baiano, durante a existência do ex-senador Antonio Carlos Magalhães (ACM – Salvador, 4 de setembro de 1927 — São Paulo, 20 de julho de 2007), o político de 64 anos deixa a vice-presidência de Governo do Banco do Brasil, cargo que ocupa desde maio do ano passado dentro do arranjo político que compõe a base aliada do governo da presidenta Dilma Rousseff, e assumirá a pasta dos Transportes, de acordo com nota à imprensa divulgada pelo Palácio do Planalto. Borges passa a gerir um dos maiores orçamentos da República que, no ano passado, assegurou o total de R$ 21,9 bilhões.
Na nota, lida por um assessor, a presidenta Dilma “agradeceu a dedicação, o empenho e o espírito público” do ministro dispensado “em todas as missões que lhe foram confiadas”. Sobre Borges, disse acreditar que ele “dará continuidade aos projetos essenciais ao desenvolvimento do país com a mesma eficiência que demonstrou no Banco do Brasil”. A declaração encerrou as negociações com a bancada do PR e garantiu à base aliada nomes como o ex-governador do Estado do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, na Câmara, e do senador Blairo Maggi (MT), uma das maiores fortunas do país; além do deputado Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço paulista Tiririca, e o presidente da legenda, o senador amazonense Alfredo Nascimento.
Dilma, ao empossar no seu ministério um dos integrantes do governo militar e aliado de primeira hora de ACM, que consolidou seu poder no Estado baiano após a indicação ao governo pelo ditador à época, o general Emílio Garrastazu Médici, eleva a cota dos conservadores em sua administração. O próximo integrante das forças da direita a ocupar o 39º ministério no primeiro escalão do governo, segundo fonte confidenciou ao Correio do Brasil, na manhã desta terça-feira, é o vice-governador do Estado de São Paulo, Guilherme Afif Domingos (PSD). Apesar da negativa da legenda em participar, oficialmente, da base aliada, Dilma manterá o empresário e aliado das forças da direita paulista na recém-criada secretaria da Micro e Pequena Empresa. Ainda segundo a fonte, que prefere o anonimato, a presença de Domingos no governo “facilita o entendimento com a bancada pesedista, principalmente na Câmara, onde a composição do governo ainda é extremamente frágil”.
Festa discreta
Alheia ao desgaste que a nomeação causa ao seu governo, no arco das esquerdas, a presidenta Dilma recebeu logo pela manhã os cumprimentos do prefeito de Salvador, ACM Neto, um dos principais líderes do Democratas (DEM). O neto de ACM considerou “muito bom para a Bahia e para Salvador” o nome do ex-governador Borges, no Ministério dos Transportes.
“É um político com serviços prestados à Bahia e ao Brasil. Como ex-governador, conhece as necessidades do nosso Estado e pode nos trazer contribuições significativas” disse o herdeiro do carlismo. Ele também sublinhou que é sempre importante ter um baiano à frente de uma das pastas mais importantes no ministério da presidenta petista. Em nota, distribuída nas primeiras horas desta terça-feira, ACM Neto também desejou sucesso ao novo ministro.
Segundo revelou a jornalistas o presidente do PR, ministro dos Transportes no início do atual governo, a escolha do nome para a nova gestão à frente da pasta dos Transportes “foi exclusiva da presidenta Dilma”. Ele a mandatária reuniram-se, na véspera, para acertar os últimos detalhes políticos da nomeação, como o fechamento dos compromissos com vistas à campanha eleitoral, no ano que vem, e à manutenção do apoio nas duas Casas legislativas.
Nascimento pediu para deixar a equipe da presidenta Dilma após o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com o apoio da revista semanal de ultradireita Veja, envolvê-lo em uma denúncia sobre a existência de esquemas de corrupção e fraudes no Ministério dos Transportes, sob seu comando. Até agora, as investigações não foram concluídas. A explicação é do próprio senador Nascimento, em entrevista concedida à emissora amazonense de TV A Crítica. Durante a conversa, Alfredo contou como as mais de 200 ligações de Carlinhos Cachoeira para a revista Vejaajudaram a “montar” a denúncia contra a gestão dele. Alfredo ainda negou ter sido demitido pela presidenta e relatou que “pediu para sair”, durante as investigações que também motivaram o afastamento de outros servidores do ministério.
Em Jequié, no interior baiano, reduto da família de Borges, a comemoração foi discreta. Os jornais eletrônicos da região não repercutiram, ainda, a ascensão do conterrâneo. Apenas os líderes políticos locais e as famílias ligadas aos Borges, “tradicionais adversários políticos da família Lomanto”, como lembrou o diretor do Jornal de Jequié Wilson Novaes, aplaudiram a nomeação.
– Mas o Cesar (Borges) é bem relacionado. No declínio do carlismo ele pulou para o lado do PMDB de Geddel Vieira, mas continua amigo do prefeito de Salvador e neto de ACM – destaca Novaes.
Cargo controverso
Se os aliados comemoram a nomeação de Borges, ainda que à boca pequena, na bancada do PR na Câmara o ato da presidenta está longe de ser uma unanimidade. Para o deputado Luciano Castro (PR-PR), o partido não foi ouvido pela presidente Dilma Rousseff.
– Foi uma escolha da presidenta. Pelo que eu ouvi do deputado Anthony Garotinho, ele não foi consultado sobre isso. Acho que a bancada federal devia ter sido ouvida. Poderia até ser o César Borges, mas deveria ser consultada – reclamou a jornalistas. Castro era um dos nomes cogitados para ocupar o cargo.
Para o deputado Lincoln Portela (PR-MG), ex-líder da legenda na Câmara, no entanto, a escolha de Borges foi “perfeita”.
– Nesse momento, foi a melhor a escolha, sobretudo pela experiência do Cesar Borges – avaliza.
Portela reconhece, porém, que escolha da presidente gerou insatisfação no grupo de deputados do PR.
– Houve quem indicasse o nome do Luciano Castro, outros que queriam o Jaime Martins, enquanto até o meu nome foi cogitado para o ministério. Mas o partido se sente contemplado, e, claro, que a indicação reforça a relação do partido com o governo. Num processo democrático é assim mesmo: uns querem, outros não – conformou-se.

NOVA  VIA

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