20 de abr de 2013

O tédio, a mídia e o nojo



 
Sabe quando você tem a sensação de que alguma coisa, que sempre fez por prazer e interesse, de repente virou obrigação e perdeu a graça? É o que está acontecendo comigo, em relação aos noticiários de televisão. Todos os dias, talvez por força do hábito, assisto a uns três programas de notícias. Mas isso tem se tornado uma atividade cada vez mais entediante, quando não indignante.

Vamos aos porquês.

Nos dois últimos anos, passei um total de quase seis meses fora do Brasil. Tive a oportunidade de conhecer a imprensa de alguns outros países, inclusive aqueles da Europa no início da atual crise econômica. Vi ali o mesmo processo de manipulação da informação, a imprensa como cúmplice das autoridades políticas que impuseram aos povos espanhol e português o amargo pacote das tais medidas de austeridade, exigidas pela Troica - Banco Central europeu, FMI e União Europeia - para que esses países recebessem ajuda financeira. "Troica" era a palavra mais ouvida nos noticiários, que convocava seus "especialistas" para afirmar que as tais medidas eram necessárias para o enfrentamento da crise do capitalismo. Bem, isso foi em 2011 e até hoje os portugueses e espanhóis, arrochados pela austeridade fiscal e monetária de seus governantes, não lograram superar a tal crise.

 Emissários da Troica: já vimos muitas vezes essa cena no Brasil...

Ano passado, estive na Austrália. Coincidência: o período era de eleições e a primeira-ministra, Julia Gillard, concorria à reeleição. Não vi ataques ferozes da mídia a ela, mas sim o debate de temas caros aos australianos, que eram colocados em pauta pela candidata ou por seu opositor. Vejam a diferença: pelos candidatos. A partir deles, toda a mídia discutia o tema pautado. E essas discussões foram evidenciando a inconsistência das propostas neoliberais do candidato da oposição, que terminou perdendo a eleição. Isso porque os australianos quiseram garantir a continuidade das políticas sociais implementadas pelos trabalhistas. Conversei com mais de uma pessoa que elogiou as medidas assistenciais implantadas pelo governo, de proteção aos mais pobres, aos desempregados e aos aposentados. E várias outras, como por exemplo aquelas destinadas aos jovens que iniciam a vida de trabalho.

Mas. (Sempre há um "mas"...)

Tudo isso me ocorre hoje, depois de assistir pela enésima vez a uma matéria sobre o risco de racionamento de energia elétrica aqui no Brasil. O estardalhaço da mídia - minha avó diria "o frege" - quer me convencer de que VAI HAVER o tal racionamento. E, de quebra, a tão propalada redução nas contas de luz não vai ocorrer. Vi isso na Globo, na Band e na Record. Os "especialistas" convidados são sempre os caras que endossam as teses dos noticiários. A Band chegou ao cúmulo de entrevistar um diretor da CPFL - empresa paulista que se opôs ao projeto do governo federal de redução das tarifas de energia. 
 
Miriam Leitão faz escola: a prática da urubulogia está se disseminando na mídia brasileira. Proliferam os jornalistas metidos a entender de todos os assuntos. Muitos deles fazem cursos de pós-graduação e, como prêmio, recebem bolsas de estudos do Instituto Milenium e da Sociedade Interamericana de Imprensa, bastiões do pensamento da direita latino-americana (se é que se pode chamar toda essa tosquice intelectual de "pensamento"!) Na América Latina, a mídia, de fato, se transformou em partido político, que leva a reboque políticos de oposição aos governos eleitos democraticamente. No momento, a urubulogia concentra suas agourentas previsões na situação venezuelana: alguns jornalistas nem disfarçam o desejo de que Hugo Chávez morra de vez, antes de tomar posse na presidência da Venezuela.

Então. Passada a preguiça, o "boring", vem o nojo - no sentido espanhol da palavra. Por que eu tenho de aturar o Bóris Casoy babando maus agouros no horário nobre? E o arzinho de revolta alarmante do William Bonner? Ora pois!

Que nojo essa mídia e seus colunistas me provocam - com poucas exceções!  É esse nojo que acende minha indignação e renova minha disposição de continuar lendo e combatendo essa cambada de gente antipovo, antiBrasil, antidemocracia!
 

NOVA VIA

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